O conforto de fazer o mesmo de sempre

dilbert-20101223

Muitas vezes ao longo da nossa vida entramos numa fase de estagnação sem nos apercebermos. Os dias de trabalho são passados em modo piloto automático enquanto vamos riscando tarefas na nossa To Do List. Tudo o que fazemos é aparecer.

É muito fácil cair nesta rotina ocupada e pensar que estamos a alcançar algo, quando na realidade podemos nem saber para onde estamos a ir. Não paramos para pensar nos nossos objectivos pessoas e profissionais, que no fundo deveriam ser uma e a mesma coisa ou pelo menos estar perfeitamente alinhados.

Estamos tão bem na nossa zona de conforto que, sem nos apercebermos, podemos estar confortavelmente a ficar para trás.

Quem se vê de repente numa situação de desemprego após longos anos na mesma empresa é drasticamente confrontado com esta realidade. O mesmo acontece quando os “bons” alunos que estudaram muito para ter as melhores notas saem para o mercado sem terem trabalhado em nada.

Há uma frase motivacional que circula em várias imagens Pinterest-ianas que é geralmente atribuída ao contexto fitness mas que encaixa no mundo do trabalho: get comfortable being uncomfortable.

Assenta que nem uma luva à realidade do empreendedorismo.

Quando ouvimos notícias sobre uma nova startup que conseguiu financiamento de milhões ou um empresário que abriu a sua terceira empresa, temos tendência para pensar que são casos raros de pessoas especiais que têm muita experiência, sabem muito ou são especialistas numa área.

Na realidade têm as mesmas dúvidas que nós e metade do tempo não sabem o que fazer, nem como fazer. A principal diferença é que resolveram fazer, aprenderam como e fizeram.

Esta realidade não é um exclusivo do empreendedorismo. Antigamente era fácil fazer carreira numa empresa grande a fazer o mesmo de sempre. Todos os anos o mesmo plano de marketing, todos os meses de Outubro o mesmo orçamento…

Hoje já não é assim.

Primeiro, já não há carreiras para a vida, o que significa que vamos mudar de emprego múltiplas vezes. E segundo, o mundo mudou. As empresas enfrentam constantemente desafios novos e a evolução do mercado é rápida demais.

Temos de aceitar e até procurar o desconforto de não termos um roadmap.

Ao longo da minha carreira tenho-me visto constantemente obrigada a fazer coisas que não sabia como fazer. Raramente tive uma função perfeitamente definida. Estive numa empresa em que me era directora de marketing e aí uns 10% do que fazia era marketing.

Negociei com Câmaras Municipais, “fiz mesa” em jogos de futsal, estive em reuniões onde se falava de piscinas e de cozinhas industriais, tive de lidar com reclamações do cliente final, decorar um restaurante e dar boleias a DJs. E isto são tarefas triviais comparadas com os desafios maiores.

Há tempos passei uma semana a fazer pesquisa intensiva (algo que não gosto particularmente) no contexto de uma área que não domino (private equity) e sem ajuda de ninguém além do Google.

Agora estou a fazer um plano de negócios para lançar um produto num indústria que não conheço, num mercado completamente diferente do actual da empresa e num país onde nunca trabalhei antes nem falo a língua local.

Hoje mesmo, estou a estruturar uma academia de modelos. A última coisa que me imaginei a fazer na vida. Estou para lá de desconfortável.

Ao primeiro sinal de conforto é necessário colocarmos as coisas em perspectiva.

Os trabalhos que valem a pena, os que nos desafiam, nos obrigam a ser melhores e podem ser career changing ou até life changing são precisamente aqueles que não sabemos fazer.

Ou melhor, que achamos que não sabemos fazer.

Rute da Silva Brito

4 comments

Deixa um comentário

Subscrever

Recebe posts novos directamente no teu email.