Emigrar: compensa o que deixamos para trás?

 

Os meus pais na Broadway em Nova Iorque, 2016.

Já referi aqui antes que, ao contrário de muitos portugueses, não emigrei por falta de opções. Emigrei para partir à aventura, para conhecer outra parte do mundo, para internacionalizar a minha carreira e para ter mais liberdade financeira.

Estar longe custa a todos. A saudade não distingue tipos de emigração. Bem sei que não é nenhum consolo, mas quem partiu “obrigado” ao menos não põe tudo em causa quando a distância não perdoa.

Já perdi um Natal em família, o aniversário da minha cunhada, os 50 anos da minha sogra e o soprar das velas da minha mãe. A sobrinha que mal andava e agora já corre, fala ao telefone e teve as primeiras aulas de natação.

É nestas alturas que vêm as lágrimas ao olhos, o nó na garganta, o aperto no coração e à mente, a mesma pergunta de sempre: “será que vale a pena?”

Sou abençoada. Tudo o que ganho em estar aqui é maravilhoso mas o trade off é um preço muito alto. Especialmente naqueles dias. Especialmente hoje.

Hoje, o meu pai faz 60 anos.

60 anos. Tive que repetir para ver se me convenço. Ninguém acredita. Aquele homem é um poço de força e determinação. Está para vir algo que o deite abaixo.

Agora que penso nisso, os meus pais são filhos de emigrantes. O meu pai nasceu em Moçambique e ainda não era maior de idade quando foi sozinho estudar para a África do Sul e mais tarde emigrou para o Zimbabwe, onde conheceu a minha mãe.

Quando casaram tinham um colchão e um frigorífico. Mais tarde veio um berço e o meu irmão. O meu pai abriu a oficina dele, construíram uma vida para depois terem de deixar tudo, já durante o regime do Mugabe, rumo a Portugal com o pouco dinheiro com que era permitido viajar e uma criança de 3 anos ao colo

Não o deitou abaixo.

Em Portugal, depois de muitas peripécias que incluíram o meu pai numa bicicleta a fazer km todos os dias de oficina em oficina ou a reparar carros que ia vendo “empanados” na rua, voltou a abrir o seu próprio negócio. Voltou a construir uma vida com a minha mãe só para depois ter de começar tudo do zero, quando ela estava grávida de mim e a oficina ardeu num incêndio em Caxias.

Não o deitou abaixo.

Até hoje, lembro-me sempre de ver o meu pai a levantar-se todos os dias cedo para ir trabalhar, mesmo quando tinha vários empregados. Lembro-me da minha mãe sair do trabalho e ainda ir entregar carros a clientes, ou comprar peças. Nunca me faltou nada, nunca ouvi uma queixa. Nem quando a crise começou a afectar os pequenos empresários e o Estado começou com os cortes à função pública (o emprego da minha mãe).

Não o deitou abaixo.

Nunca se queixou. Até hoje não acredito que passou por um cancro porque enfrentou de tal forma que parecia que não se passava nada. Continuava a jogar à bola e a levantar-se para ir trabalhar.

Não o deitou abaixo.

Nem fez com que deixasse de viver a vida ao máximo.

Os meus pais já refizeram a vida duas vezes, mudaram de país, andaram em aventuras em África (só contado!), abriram negócios, construíram casas, educaram filhos, levaram-nos a viajar de carro pela Europa, cuidaram dos pais deles e agora começam a vir os netos.

O meu pai ainda teve tempo para se dedicar aos filhos dos outros. Dá tudo o que tem.

O meu pai não me ensinou com palavras, foi sempre com exemplo. De empreendedorismo, de persistência, de resiliência… Gratidão mesmo nos momentos difíceis. Sangue, suor e lágrimas. Literalmente.

Gostava de ser como ele, e que também nada me deitasse abaixo mas…

Oh Dubai, que me tiras o meu pai!

E logo hoje que é dia de festa… Parabéns Arménio.

4 comments

  1. Adorei o teu texto!! A tua forma de pensar e de estar perante a vida levar-te-á (ainda mais) para novos mundos, novos lugares 🙂

Deixa um comentário

Subscrever

Recebe posts novos directamente no teu email.