Não sou Licenciado. E agora?

Como competir num mercado inundado de “doutores”?Dropout snapback

No mundo do marketing e dos negócios em geral, a escassez é uma ferramenta poderosa. Um produto ou um serviço que tem uma procura tão alta que as pessoas querem mais do que a empresa consegue (ou quer) oferecer. A escassez possibilita que se cobre um preço mais alto e que se crie um sentimento aspiracional: as pessoas querem aquilo que não podem ter.

É no princípio da escassez que se baseiam as edições limitadas, as reservas com meses de antecedência para conseguir mesa nos melhores restaurantes e as waitlists para comprar uma Birkin Bag.

O mesmo se aplica numa perspectiva de carreira. Profissões novas e altamente especializadas têm excelentes saídas e podem garantir ordenados brutais quase à saída da faculdade. Outras, como bem sabemos, nem tanto.

Num mundo em que ter uma licenciatura se tornou uma commodity (o contrário de um bem escasso), o canudo perdeu o valor empregabilidade, numa escala que vai desde um pouco a quase todo, dependendo da área.

Mas se uma licenciatura hoje em dia pouco vale, então o que dizer de quem não é licenciado? De quem apenas tem o 9º ano ou o ensino secundário?

Quando comecei a escrever o livro que deu nome ao meu blog Licenciado. E Agora? tinha um target muito específico em mente: estudantes universitários, recém-licenciados e jovens profissionais. Escrevo para este público simplesmente porque é a realidade que conheço.

No entanto, o volume de emails que recebo de pessoas numa situação diferente levou-me a escrever este texto. Antes de esmiuçar o assunto, quero deixar claro que não tenho respostas para todos os problemas – muitas vezes nem para os meus! – por isso isto é apenas uma reflexão.

Antes de mais, há que reconhecer duas coisas:

  1. Nem toda a gente TEM de (ou deve) tirar uma licenciatura;
  2. “Não-licenciado” não é uma categoria e as situações não são todas iguais.

Há inúmeras profissões que não requerem uma licenciatura como hospedeiras de bordo, pilotos de aviões, agentes imobiliários, profissões técnicas como carpinteiros ou mecânicos auto, profissões mais artísticas, fotógrafos, etc.

Estas profissões não requerem licenciatura mas requerem formação. Se queres ser mecânico tira um curso profissional. Ou então procura uma pequena oficina com um bom mecânico e oferece-te como aprendiz. O meu pai tem uma oficina e já perdi a conta a quantos mecânicos formou.

Se queres vender casas, inscreve-te na Remax. Mas não fiques por aí. Lê todos os dias artigos sobre o mercado imobiliário. Procura leads em todo o lado. Tira um bom curso de vendas. Aprende com os melhores vendedores. Fala com clientes e vai testando técnicas diferentes. A prática leva à perfeição.

Estás a identificar o padrão? A melhor forma de encontrar trabalho é trabalhar.

Os exemplos que descrevi em cima são de pessoas que não são licenciadas mas têm uma profissão. Muito ficou por dizer, mas o meu focus neste artigo são as pessoas que, por alguma razão, não concluíram o secundário e desde então têm trabalhado aqui e ali.

Tenho recebido emails de pessoas que estão desempregadas e só precisam de um trabalho. Qualquer trabalho. O que costumo chamar um “survival job”, só para pagar a renda e por comida na mesa.

E se já vemos alguns “doutores” nestes empregos não-qualificados (a trabalhar na Worten, na Zara, ou no KFC), então como é possível competir tendo menos estudos? Tenho 5 sugestões.

#1. Inverte a situação: torna a desvantagem em vantagem

Para muitos destes empregos, contratar um licenciado envolve mais riscos. Os licenciados saltam fora à primeira oportunidade que tiverem para trabalhar na área deles e isso implica custos acrescidos para os substituir. Além disso, muitos inscrevem-se para ganhar uns trocos mas depois fartam-se do trabalho passado pouco tempo. É sempre incerto.

Apresenta-te como o oposto disso, como uma aposta segura, um funcionário dedicado, leal e responsável. Alguém que se vai empenhar e que eventualmente considera fazer carreira dentro da empresa, ir abraçando novas responsabilidades. Mostra-te interessado.

Se estiveres inscrito no centro de emprego, enfatiza os incentivos à contratação de que a empresa poderá beneficiar.

#2. Apela ao lado humano

Se és um revoltado contra o sistema que acha que as empresas são todas um antro da maldade e quem lá manda um vilão tipo Lex Luthor, isso vai transparecer.

Tens de reconhecer as tuas qualidades, sim, mas reconhece também que estás numa situação em que precisas de ajuda. Nunca te rebaixes, mas um pouco de humildade e vulnerabilidade pode ser determinante. Do lado de lá está um ser humano e as pessoas reagem a emoções. Além disso vais apanhar a pessoa de surpresa.

Conta a tua história, as tuas dificuldades. Pede ajuda e realça que ficarás grato se a receberes. Funcionários a quem se estende a mão quando precisam são mais leais e isso acrescenta-te valor.

Podes fazer isto começando pelo teu CV e carta de apresentação, até ao contacto pessoal.

#3. Apresenta uma boa imagem

A imagem é das coisas mais importantes para conseguir o trabalho, especialmente quando as hipóteses estão contra ti e vais ter de lidar com o público.

Não interessa se és uma rock star ao fim-de-semana: apanha o cabelo, apara a barba e veste a tua “melhor” roupa (não a que levas para os concertos). Não vais perder street cred por adaptares a tua imagem ao mercado de trabalho, you’re still a rock star at heart.

Eu gosto de rap mas durante a semana troco os meus Air Force Ones por saltos altos.

#4. Abre um negócio ou trabalha para ti próprio

“The very best part-time is very possibly a small-business idea. I have nothing against Burger King, but why flip Whoppers at minimum wage when there are a million small-business ideas you could start with today? There is no point in remaining unemployed “looking for work” – Dave Ramsey

Tens jeito para crianças? Começa a fazer babysitting para os teus vizinhos. Falas bem inglês? Dá explicações a miúdos do 5º ano. Vives num sítio frio? Bate à porta das casas com chaminé e vende lenha cortada.

Sim, eu sei, a crise…

Mas hoje em dia temos mais oportunidades que nunca, o problema é que elas fogem da passividade. A internet abre tantas portas que é incrível as coisas que se pode fazer para ganhar dinheiro. Sabias que há um tipo que ganha a vida a pronunciar nomes esquisitos no Youtube? Começou com jogadores de hockey mas qualquer pessoa pode fazer um pedido e por 5 dólares, o Run for the Cube pronuncia.

Se achas que isto é tudo muito bonito mas as oportunidades só existem no estrangeiro então é porque nunca ouviste falar no Moço de Recados.

#5. Descobre a tua paixão

Parar é morrer. Assim que tenhas um survival job que assegure a renda da casa, não te acomodes. Todos temos jeito para alguma coisa e quando o jeito é aliado à paixão, conseguimos fazer coisas incríveis. Pode ser que passe por evoluíres dentro da empresa onde começaste por baixo. Pode ser trabalhar como freelancer numa coisa completamente diferente.

Assim que descobrires, investe tudo o que tens nisso. Nem sempre é preciso dinheiro, tempo é o melhor investimento. Hoje em dia as ferramentas que precisamos para aprender estão quase todas online e muitas são gratuitas. Tens acesso a cursos de universidades de topo sem pagar um tostão.

É preciso dedicação e persistência mas nunca é tarde. O Colonel Sanders só abriu o KFC com 65 anos!

“The most untutored person with passion is more persuasive than the most eloquent without” – François VI, duc de la Rochefoucauld

Qual é a tua paixão?

Para terminar, respondendo de antemão aos comentários que aí vêm, género “ah isso é fácil dizer para quem nunca esteve desempregado”: Eu já estive 4 vezes à procura de trabalho. O que fiz entretanto? Trabalhei. Abri dois negócios (sem dinheiro). Escrevi blogs.

Mas isto já são histórias para outro artigo…

3 comments

  1. Adorei o artigo e demonstras que ja passas-te pela mesma situação, sempre ouviu-se dizer que aprendemos com erros. Atitude nunca deve faltar, comecei um projeto sozinho denominado por modding.pt e faço por gosto. Quero tornar o projero em algo solido e rentavel para o meu futuro tornar-se sustentavel e credivel. O nosso pais não oferece condiçőes suficientes para erguer algo, estou sempre na espespectatice como freelancer de conseguir trabalho seguro e solido fora de Portugal.

    Cumprimentos

  2. Olá Miguel,

    É verdade, aprendemos imenso com os erros. Faz parte do caminho e muitas pessoas desistem porque desanimam e nem se apercebem que se calhar estavam quase na meta.

    Infelizmente o tempo do trabalho “seguro” já lá vai e hoje exige-se muito mais à nossa geração, que nos adaptemos aos desafios de um mercado global e muito mais rápido, dinâmico e competitivo.

    Estive a ver o site, well done. Boa sorte para o projecto!

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